No dia 24 de setembro de 2019, o Conselho Deliberativo do Botafogo realizou, na
sede de General Severiano, uma reunião histórica aberta à imprensa.
Naquela noite, foi apresentado oficialmente o plano de negócios (Business Plan)
da Botafogo S/A, o projeto inicial de clube-empresa que pavimentou o caminho
para a posterior transformação do futebol do clube em SAF.
Historicamente fechadas e cercadas de mistério, as reuniões de Conselho dos
grandes clubes do futebol brasileiro costumam ser restritas. Rompendo a
tradição, o Botafogo permitiu a entrada da imprensa para acompanhar a
apresentação, sinalizando ao mercado um compromisso com a transparência.
O encontro funcionou estritamente como uma sessão informativa. O objetivo
principal era tirar dúvidas e alinhar o entendimento dos conselheiros sobre o
modelo de transição, sem uma deliberação ou votação de estatuto naquela data.
Conduzida sob a pauta de "Informes do Conselho Diretor acerca do Projeto
Investidores", a reunião detalhou como o futebol seria separado da parte
social e transformado em uma estrutura societária profissional.
Uma das maiores preocupações sanadas na noite foi a garantia jurídica de que as
tradições do clube estariam protegidas. Premissas como a manutenção das cores,
do escudo, do nome e da sede seriam cláusulas imutáveis no estatuto da nova
empresa, independentemente de quem assumisse o controle majoritário
futuramente.
Aquela noite de setembro de 2019 estabeleceu a base de confiança necessária
para que, nos meses seguintes, o Conselho e a Assembleia Geral aprovassem o
projeto por ampla maioria, colocando o Botafogo na vanguarda da transição para
o modelo corporativo no futebol brasileiro.
A histórica reunião do Conselho Deliberativo de 24 de setembro de 2019 contou
com a liderança da cúpula diretiva do clube e a participação ativa de
conselheiros influentes da política alvinegra, dentre eles:
Nelson Mufarrej: o então presidente executivo do clube associativo, que deu o
aval político para o início do projeto.
Laércio Paiva: Economista, conselheiro e o grande idealizador técnico e
coordenador do comitê executivo da Botafogo S/A. Foi ele quem de fato
apresentou os números, os conceitos de mercado e detalhou o Business Plan aos
presentes.
André Barros: Conselheiro alvinegro que fez um forte discurso de apoio integral
à transição corporativa.
Carlos Augusto Montenegro: ex-vice de futebol e figura histórica nos bastidores
do clube, que interpelou a mesa questionando de forma incisiva sobre quais
projetos e investidores fariam parte daquele ecossistema.
Sérgio Cerqueira: conselheiro que manifestou preocupações jurídicas a longo
prazo, alertando para a necessidade de o clube se blindar contratualmente em um
projeto desenhado para durar décadas.
José Victor: Grande Benemérito do Botafogo, que focou sua fala na preocupação
imediata com a saúde financeira do clube e as dívidas daquela temporada (2019).
Edson Alves Junior: Presidente do Conselho Deliberativo na época do Botafogo.
Foi ele quem abriu formalmente a sessão, leu a ordem do dia e conduziu os ritos
estatutários da noite.
Morgan Cavalcanti: Secretário do Conselho Deliberativo Botafogo, responsável
por lavrar a ata do encontro.
Aníbal Rouxinol: Conselheiro benemérito que se manifestou com ponderações
técnicas a respeito das garantias financeiras.
Raphael de Almeida: Fez questionamentos voltados à preservação do patrimônio
imobiliário do clube social (como as sedes de General Severiano e Mourisco
Mar).
Bernardo de Souza: Conselheiro que manifestou voto de confiança na equipe
econômica liderada por Laércio Paiva.
O nome do empresário americano John Textor só surge formalmente na história do
Botafogo em dezembro de 2021, mais de dois anos após aquela reunião inicial de
2019.
A transformação do clube em empresa ocorreu em etapas bem distintas. Na reunião
de setembro de 2019, o projeto apresentado por Laércio Paiva era o da Botafogo
S/A. A intenção daquela época era buscar um pool de múltiplos investidores
(principalmente nacionais e fundos de investimento), sem a figura de um
"dono" único com controle majoritário isolado.
No entanto, a pandemia de COVID-19 em 2020 e as dificuldades financeiras
asfixiantes do clube travaram o modelo da Botafogo S/A. O cenário mudou
completamente em agosto de 2021, quando foi sancionada a Lei das SAFs (Lei 14.193/2021)
no Brasil, criando um ambiente jurídico muito mais atraente e seguro para
investidores estrangeiros de grande porte.
Com o clube estruturado sob a nova lei e após conquistar o título da Série B de
2021, o banco parceiro XP Investimentos buscou compradores no exterior. Foi aí
que o nome de John Textor, por meio da sua holding Eagle Football, entrou no
radar alvinegro.
Exatamente na véspera de Natal, Textor assinou o pré-contrato (oferta não
vinculante) para a compra de 90% das ações da SAF do Botafogo. Esse foi o
primeiro momento em que a torcida conheceu o empresário.
Textor desembarcou no Rio de Janeiro sob imensa festa da torcida no aeroporto e
assinou a oferta vinculante após aprovação unânime do Conselho Deliberativo.
Em 3 de março de 2022 foi assinado o contrato definitivo de compra,
transferindo oficialmente o controle do futebol para as mãos do americano,
prometendo um aporte mínimo de R$ 400 milhões.
John Textor foi o personagem que de fato injetou o capital e assumiu o comando
anos mais tarde, iniciando uma era de forte investimento que culminou em
títulos expressivos, mas também em profundas disputas societárias nos anos
seguintes.

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