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quarta-feira, 11 de julho de 2012

RETRATO EM BRANCO E PRETO: MIMI SODRÉ


Benjamim de Almeida Sodré, o “Mimi Sodré” foi um dos primeiros ídolos da história do Botafogo, do Rio de Janeiro e uma das mais interessantes figuras do futebol brasileiro.
Ele era habilidoso, rápido, inteligente, organizado e muito responsável.
Segundo depoimento de sua filha, Dora Sodré, Mimi nasceu na cidade de Messejana, próxima a capital Fortaleza, Ceará, no dia 10 de abril de 1892.
Curiosamente, o livro “Seleção Brasileira 1914-2006”, de Antônio Carlos Napoleão e Roberto Assaf, afirma que foi em Belém (PA), em 30 de outubro de 1892.
Já o livro “História dos Campeonatos Cariocas de Futebol 1906/2010”, de Roberto Assaf e Clóvis Martins, confirma Belém (PA), mas em 30 de dezembro de 1892.
Desde menino que “Mimi” gostava de jogar futebol, tendo como companheiros das memoráveis peladas nos gramados da sua cidade natal, os irmãos Lauro e Emmanuel.
Ainda criança mudou-se para o Rio de Janeiro e depois de terminar os estudos secundários prestou concurso para admissão na Escola Naval sendo aprovado em primeiro lugar. Fez brilhante carreira na Marinha Brasileira.
No começo dividia a paixão pelo Botafogo com a Marinha. Mas a profissão não permitia atenção total ao futebol devido às viagens de navio. Mesmo assim, ele sempre procurava dar um jeito de jogar e treinar, o que não era fácil. Por isso muitas vezes perdeu jogos do Botafogo e até da Seleção Brasileira.
A 31 de maio de 1908, inaugurando o seu campo na rua Voluntários da Pátria, o Botafogo derrotava o Riachuelo por 5 x 0. Na preliminar, no jogo de segundos quadros, em que se deu a estréia de Mimi Sodré, o Botafogo venceu pela elevada contagem de 15 x 0.
Mimi Sodré disputou seis jogos pelo campeonato de segundos quadros, onde o Botafogo ficou com o vice-campeonato.
Mimi Sodré fez sua estréia no time principal do Botafogo no dia 16 de agosto de 1908, no segundo jogo da excursão que o alvinegro carioca fez a São Paulo. Naquele dia, no Velódromo, o Botafogo foi derrotado pela A. A. das Palmeiras, por 1 x 0.
O Estado de S. Paulo assim falou de Mimi Sodré em sua estréia pelo Botafogo:
“Depois de algumas tentativas infrutíferas do “team” fluminense em que pelos seus ousados e brilhantes esforços se destacou o extraordinário e minúsculo “forward” (de uns 14 anos; obs.: na verdade, tinha 16) Sodré, já um mestre nos segredos do “association” ...
Prossegue o jornal paulista: “Pelos fluminenses destacamos Coggin, os “backs” M. Maia e Werneck, L. Rocha e o brilhante e prometedor Sodrésinho”.
Mais alguns comentários da imprensa paulista registrados no livro de Alceu Mendes de Oliveira Castro:
“O Botafogo apresentou ontem, no seu “team”, um elemento de primeira ordem, que conseguiu, em poucos momentos, captar as simpatias do público.
Queremos nos referir ao “forward” Mimi Sodré – um petizinho destemido a valer, que fez a defesa do Palmeiras duplicar a sua vigilância e os seus esforços. Mimi Sodré não tem por hábito jogar como de regra, na sua posição, porque ele está sempre junto da bola, quer ela esteja no centro de campo quer na extremidade. Muito veloz, esperto, possuidor de quase todos os conhecimentos do futebol, Mimi Sodré é um verdadeiro ratinho branco”.
O Botafogo formou com Ernest Coggin, Octávio Werneck e João Leal; Rolando de Lamare, Viveiros de Castro e Ataliba Sampaio; Henrique Teixeira, Flávio Ramos, Edwin Cox, Mimi Sodré e Emanuel Sodré.
Em 1909, disputou apenas um jogo pelo campeonato carioca dos primeiros quadros, no dia 26 de setembro, no empate de 1 x 1 com o América. Além disso, esteve na equipe que disputou dois amistosos interestaduais: no dia 18 de julho, na derrota de 3 x 1 para o Paulistano, e no dia 3 de outubro, na vitória de 2 x 1 sobre a A. A. das Palmeiras, ambos no Rio de Janeiro.
Neste mesmo ano, sagrou-se campeão carioca dos segundos quadros.
Em 1910, passou de vez para o quadro principal. Seu primeiro jogo aconteceu em 22 de maio, no campo do Fluminense, com derrota diante do América: 4 x 1.
Isso, porém, não impediu que, ao final da temporada, comemorasse o título de campeão carioca. Esteve em todos os dez jogos disputados pelo Botafogo, marcando 11 gols.
Por conta dos acontecimentos verificados no jogo do dia 25 de junho de 1911, entre Botafogo e América (quando acabaram brigando todos os jogadores), a diretoria do Botafogo enviou ofício à Liga, declarando-se solidária com seus jogadores e solicitando sua desfiliação da entidade.
Daí em diante, o Botafogo só disputou jogos amistosos neste ano.
Afastado da Liga Metropolitana de Sports Athléticos, o Botafogo foi um dos fundadores da Associação de Football do Rio de Janeiro, que teve seu primeiro campeonato em 1912.
Mimi Sodré tornou-se campeão carioca, quando também foi artilheiro do campeonato, com 12 gols.
O Botafogo reintegrou-se a Liga Metropolitana de Sports Athléticos em 1913. O América venceu o campeonato e o Botafogo ficou com a segunda colocação (juntamente com o Flamengo). Mimi Sodré disputou 13 jogos e foi o artilheiro da equipe na competição, com 13 gols.
Em 13 de maio de 1913, foi inaugurado o campo de General Severiano. O Botafogo venceu o Flamengo, por 1 x 0, gol de Mimi Sodré.
Fora dos gramados, Benjamim foi um dos sobreviventes do naufrágio do rebocador “Guarany”, que no final de setembro e início de outubro de 1913, participava de exercícios de manobras da Marinha Brasileira na região da Ilha de São Sebastião, no Estado de São Paulo. Na madrugada do dia 3 de outubro, a esquadra se preparava para realizar um combate simulado quando uma tragédia a atingiu.
O rebocador “Guarany”, que transportava a bordo mais de 50 pessoas entre oficiais e taifeiros, além de uma guarnição de guardas-marinha que assistiam as manobras, foi atingido duramente, a 10 milhas do farol da Ponta do Boi, pelo rebocador “Borborema”, do Lloyd Brasileiro.
O impacto foi forte, muitos dos tripulantes do rebocador foram atirados ao mar e, em apenas 2 minutos, a embarcação se partiu ao meio e naufragou, levando para o fundo muitos dos tripulantes que se encontravam em seu interior.
Mimi Sodré só disputou cinco dos doze jogos do campeonato carioca de 1914, quando novamente o Botafogo ficou na segunda colocação, desta vez junto com o América. Ainda assim, marcou 2 gols.
O Botafogo não foi bem no campeonato carioca de 1915, ficando em quarto lugar entre sete equipes.
Mimi Sodré disputou dez dos doze jogos do clube, marcando quatro gols.
O destaque do ano foi a vitória de 2 x 1 no amistoso contra a A. A. das Palmeiras, de São Paulo, quando Mimi Sodré teve uma grande atuação. O jornal “Correio da Manhã” assim disse: “Passando ao nosso Botafogo, não nos é lícito deixar de prestar, “in primo loco”, uma fervorosa homenagem. Esse preito é dedicado a Benjamin Sodré, a quem soube uma tarde de glória, digna de ser mencionada na vida esportiva do célebre – célebre na extensão da palavra – jogador nacional. Manteve-se durante a contenda de modo admirável, não tendo perdido um único dos lances que durante ela intentou”.
Mimi Sodré foi o primeiro jogador do Botafogo a marcar um gol pela Seleção Brasileira, pela qual não jogou por muito tempo. O gol aconteceu no dia 18 de julho de 1916, na vitória de 1 x 0 sobre o Uruguai, num amistoso.
Antes, no dia 12 do mesmo mês, fez sua estréia na Seleção Brasileira, também contra o Uruguai, com derrota de 2 x 1, em jogo válido pelo Campeonato Sul-Americano disputado em Buenos Aires, Argentina. Foram apenas essas duas participações na Seleção Brasileira.
Ele não se dedicava mais à Seleção Brasileira porque a Marinha não deixava: precisava fazer as funções dele fora do Rio de Janeiro.
No dia 20 de setembro de 1916, em General Severiano, Mimi Sodré fez seu último jogo pelo Botafogo, na derrota de 1 x 0 para o América. Foi transferido pela Marinha para servir em Belém (PA), onde passaria a defender as cores do Paysandu local, a partir de 1918.
O prestígio de Mimi Sodré era tão grande em Belém que, em 16 de dezembro de 1917, foi o árbitro da decisão do campeonato paraense, quando o Remo venceu o Paysandu.
No dia 28 de julho de 1918, foi disputada a Taça “Mimi Sodré”, quando o Paysandu goleou o Nacional, por 5 x 1.
Além de jogar, em 1917, também foi Presidente do Paysandu, feito inédito no futebol brasileiro.
Quando lhe foi permitido, disputou alguns jogos dos campeonatos paraenses de 1918 e 1919.
Em 1920, finalmente o Paysandu alcançou o seu primeiro título de campeão paraense de futebol da 1ª Divisão. O time vinha perseguindo esse título desde 1914. Mimi Sodré e Suíço eram os dois grandes jogadores do Paysandu, que venceu a competição de forma invicta.
Em 1922, atendendo a um pedido de Carlito Rocha, reincorporou-se ao Botafogo.
Embora não possuísse mais sua incrível agilidade, ainda detinha técnica incomparável. Jogou apenas quatro partidas, não marcou gols, e o Botafogo chegou na terceira colocação do campeonato carioca.
Voltou a vestir a camisa do Botafogo no dia 29 de junho de 1922, ao participar dos 12 minutos que faltavam para ser encerrado o jogo, iniciado em 28 de maio e que não chegou ao fim por falta de energia elétrica em Campos Salles, campo do América.
Em 23 de julho de 1922, na vitória de 2 x 0 sobre o América, fez seu último jogo com a camisa do Botafogo.
Mimi Sodré fez parte de uma comissão técnica que dirigiu o Botafogo no ano de 1923, substituindo um dos membros do comitê, Luiz Bento Palamone.
Além de militar e futebolista, Mimi Sodré encontrou tempo para se dedicar ao escotismo, em memória de seu pai, Lauro de Almeida Sodré. Ainda aluno da Escola Naval, leu o livro de Baden Powel – Scouting for Boys, que muito o impressionou, dado ser uma obra que visava ao problema da educação do jovem. Entusiasmado com o objetivo do Movimento Escoteiro, abraçou os seus ensinamentos, e a ele se dedicou por toda a sua vida, exercendo várias funções na UEB – União dos Escoteiros do Brasil. Chefiou os seguintes grupos: 1º Grupo de Escoteiros de Belém, Grupo de Paquetá, Grupo de Botafogo (2 fases) e Gaviões do Mar (2 fases). Dirigiu os primeiros Cursos para Chefes da FBEM e da UEB, em vários Estados do Brasil.
Foi Comissário Técnico da UEB (2 legislaturas); membro do Conselho Nacional da UEB e do Conselho Regional/RJ; Comissário Nacional dos Escoteiros do Mar – título vitalício; Presidente da FBEM – várias legislaturas.
Em setembro de 1925, publicou sob o pseudônimo de Velho Lobo o "Guia do Escoteiro", reconhecido como um dos melhores e dos mais completos livros para os jovens escoteiros. Foi honrado com uma série de títulos, entre eles o de “Cidadão Honorário do Rio de Janeiro” e outros Estados e medalhas de mérito, recebendo a “Ordem do Tapir de Prata”, a mais alta condecoração do escotismo brasileiro, a Cruz de São Jorge e a Medalha Tiradentes.
Foi professor de Astronomia, Navegação e História da Escola Naval, tendo publicado diversos trabalhos.
Passaram-se os anos e Mimi Sodré não abandonou o Botafogo. Em 12 de maio de 1941, o então Comandante Benjamin Sodré tornou-se presidente do Botafogo para acabar com uma crise interna.
Durante a II Guerra Mundial chefiou a Comissão Naval Brasileira. Tornou-se Almirante de Esquadra em 1954.
Faleceu em 2 de fevereiro de 1982, no Rio de Janeiro, onde residia.
Atualmente vários Grupos Escoteiros, ruas e espaços municipais levam o nome de Almirante Benjamin Sodré, em sua homenagem.
Além do Escotismo, dedicou-se também a outras instituições ligadas à Educação e à Cultura. Foi Grão Mestre da Maçonaria, Presidente da Campanha Nacional das Escolas da Comunidade, do Cenáculo Fluminense, da Associação de Ex-Alunos da Escola Superior de Guerra e outras mais. Recebeu significativas condecorações em todas as áreas em que atuou.

Fontes:
O Futebol no Botafogo (1904-1950)
Estado de S. Paulo
Centro Cultural da Memória Escoteira
Wikipédia

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