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terça-feira, 17 de julho de 2012

AS DECISÕES: TAÇA GUANABARA DE 1967



A decisão da Taça Guanabara de 1967 aconteceu entre Botafogo e América, no dia 20 de agosto de 1967, no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ).

O início do jogo não podia ter sido melhor: dada a saída, o Botafogo foi à frente, o América tomou a bola, tentou o contra-ataque, perdeu, o Botafogo voltou, Paulo César recebeu pela ponta-esquerda, fechou para a área e, da posição de meia esquerda, atirou forte de pé direito, colocando a bola no gol. Menos de um minuto, 1 x 0. O América deu a saída, Antunes lançou Edu pelo meio, ele livrou-se de Zé Carlos, entrou na área e, quando Manga saiu, colocou no canto esquerdo. Segundos depois, 1 x 1.
O Botafogo, porém, absorveu o choque do empate tão prematuro e não sentiu o gol. Voltou para frente, mais disposto e melhor armado em campo, ganhando quase todas as disputas e conquistando as bolas sobradas. Era o time melhor armado taticamente e melhor preparado fisicamente – e por isso tinha o domínio do jogo.
A entrada de Paulo César deu ao ataque a força necessária para que tomasse todos os espaços do campo, pois ele não era um ponta recuado, mas sim um ponta que recuava. Quando o time ia à frente, Paulo César acompanhava e se tornava um homem útil e agressivo.
O América, parecia, não esperava um Botafogo completo mas sim a equipe torta, perneta na esquerda, onde Afonsinho é um excelente armador mas sem nenhuma objetividade para o gol. A presença de Paulo César e sua movimentação tirou toda a perspectiva de jogo de Joãozinho, uma das peças bases da equipe americana. Joãozinho ficou perdido, sem saber o que fazer, enquanto Marcos e Ica limitavam-se exclusivamente ao desarme, sem municiar o ataque. O Botafogo era um todo, ia e vinha inteiro; o América estava dividido, o ataque – Edu, Antunes e Eduardo – isolado do resto, a equipe jogava em ritmo sincopado.
O domínio do Botafogo manifestava-se pelo maior volume de jogo e pela neutralização do adversário, que sequer conseguia contra-atacar quando tinha tudo para fazê-lo. O Botafogo mantinha três homens de defesa contra os três atacantes americanos num esquema arriscado, mas que dava certo, pois os lançamentos que vinham da defesa do América não eram passes em profundidade, mas rebatidas a esmo, dificultando as ações de Edu, encarregado de voltar para buscar o jogo.
Aos 44 minutos, então, aconteceu o lance que parecia fatal ao Botafogo: numa entrada desleal, Jairzinho atingiu o tornozelo de Aldeci, sendo imediatamente expulso de campo. E o Botafogo deixou o campo, no intervalo, com seu poderio ofensivo sensivelmente abalado.
O segundo tempo revelou, porém, outra faceta do jogo: o Botafogo superava-se para suprir a falta de um homem, e o América não sabia explorar a vantagem que tinha. O que se via era um time correndo todo o campo, disputando a bola para valer, com raro entusiasmo, imbuído pelo clima de decisão enquanto o outro tentava impor um estilo que não é o seu. O Botafogo, em sua movimentação, nos deslocamentos constantes de Roberto, Rogério e Paulo César, compensava a ausência de Jairzinho. Na velocidade, dominava o meio de campo e mantinha sempre o campo americano mais ocupado que o seu.
Mesmo o segundo gol do América não chegou para decidir, apesar de toda a vantagem que tinha. Aos 17 minutos, cobrando uma falta de longa distância, de Carlos Roberto em Antunes, Eduardo atirou forte, indo a bola entrar no ângulo esquerdo do gol de Manga. O Botafogo, porém, manteve seu ritmo, continuou fazendo o que estava certo, firme no esquema defensivo bem armado e ativo nas deslocações do ataque, em luta constante. Aos 25 minutos, Paulo César recebeu a bola pela direita e repetiu a jogada do primeiro gol, só que pelo lado contrário; correndo no sentido lateral, trocou de pé e chutou de esquerda, firme e rasteiro, colocando a bola no canto esquerdo de Arésio, que ainda conseguiu tocá-la.
O América assustou-se, mas tinha gravado no subconsciente a vantagem do empate, com a decisão pelo saldo de gols. Procurou travar o jogo, amainar a correria, tocar a bola de pé em pé. Ao Botafogo só a vitória interessava e assim o time dirigido por Zagalo entrou embalado para os vinte minutos da prorrogação. Começou de novo na frente, atacando, teve algumas oportunidades para marcar, e foi apertando até os 15 minutos da prorrogação, quando Paulo César trocou passes com Gérson e recebeu a bola de volta, limpa, no meio da área, e livre completou para marcar seu terceiro gol. Gol de uma vitória antes de tudo justa, do time que foi mais inteligente e mais ardente, e por isso o campeão da Taça Guanabara.

As duas equipes formaram assim:
BOTAFOGO - Manga, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Waltencir; Carlos Roberto e Gérson; Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo César. Técnico: Zagalo.
AMÉRICA - Arésio, Sérgio, Alex, Aldeci e Djair; Marcos e Ica; Joãozinho, Antunes, Edu e Eduardo. Técnico: Evaristo de Macedo.
O árbitro foi Cláudio Magalhães, auxiliado por Frederico Lopes e Airton Vieira de Morais.
A renda total atingiu NCr$ 183.226,30, com 70.254 pagantes e 12.177 menores presentes.

Fonte: Última Hora

Comentários pós-jogo

Armando Nogueira

Mil armas mobilizou o time do Botafogo para conquistar o título de campeão da Taça Guanabara, anteontem, no Maracanã: a aplicação do meio-campo, o poder de chute de Paulo César, o espírito ofensivo dos beques laterais, a troca constante entre Paulo César e Roberto, mas, acima de tudo, o campeão da cidade se fez, domingo, por uma quase inacreditável determinação de vencer.
Poucas vezes, pouquíssimas vezes mesmo, tenho visto uma equipe fazer tanto, em luta, em resistência, em correção, para ganhar uma partida quanto fez o Botafogo, domingo.
Houve organização de jogo, houve atuações individuais soberbas, houve coragem na atuação do time do Botafogo, houve superação das próprias forças para vencer uma partida de roteiro profundamente ingrato para os corações botafoguenses.
Inesquecível tarde de glória para o futebol e para o Botafogo que realizou em 110 minutos de suor uma das mais empolgantes vitórias a que tenho assistido no Maracanã.
A circunstância de ter jogado com dez elementos é notável, é notável, também, que Paulo César tenha marcado três gols de craque, mas tenho a impressão de que o que mais exalta a vitória do Botafogo é a conquista do público que começou contra ele e acabou a favor dele. Conquistar um título talvez não seja tão difícil, conquistar um estádio, sim, é consagrador. E o time do Botafogo conseguiu esse milagre: a multidão de espectadores formada de rubro-negros, vascaínos e tricolores, que por um respeitável sentimento de simpatia ali estava para torcer pelo América, rendeu-se pelo coração de Carlos Roberto.
No fim do jogo, um colega de imprensa me dizia, com ar de derrota, que o time do América o havia decepcionado. Infelizmente, eu estava feliz demais e não pude perder tempo com a amargura do rapaz. Senão, eu lhe teria pedido, na hora, que respeitasse ao menos as lágrimas vertidas no abraço, camisas ensopadas, de Eduardo e Paulo César.
A dignidade com que o Botafogo venceu só pode ser comparada à dignidade com que o América perdeu. A contrapartida do heroísmo, no futebol como na vida, não é forçosamente a covardia. O time do América não se acovardou, o time do América ouviu o derradeiro apito do juiz dentro da área do Botafogo. Atormentou-se pelo cerco irresistível do Botafogo, mas não fugiu: foi heroico no martírio da derrota como o Botafogo foi heroico no delírio de vencer.
Os deuses do futebol hão de ter abençoado, sem distinção, os derrotados do América e os vencedores do Botafogo que fizeram explodir no estádio, domingo, as emoções mais profundas da alma humana. Heróis de uma tarde de aflições e de alegrias para o coração de uma cidade que ainda é capaz de sorrir e de chorar diante do universo infantil de uma bola que rola.
Fico devendo ao futebol e especialmente ao Botafogo e ao América a lágrima da mais pura alegria que surpreendi no rosto quase meu de uma certa criança escondida na multidão dominical do Maracanã.

Oldemário Touguinhó

O juiz apita e o jogo acaba. Os jogadores do Botafogo começam a festejar a conquista da Taça Guanabara. Nesse instante, Carlos Roberto sai correndo e apanha a bola. Fica com ela debaixo do braço durante as comemorações. Um torcedor mais apaixonado exige sua camisa. Ele a tira com cuidado, mas não larga a bola. A festa continua. Jairzinho sobe as escadas do túnel e, chorando, abraça Carlos Roberto. Tudo é alegria. Gérson recebe a taça e sai com ela correndo pelo campo, com o rosto e a camisa molhados de suor: vê no troféu uma vitória pessoal sobre sua infelicidade em ganhar títulos. O jogador exibe a taça e diz, com a voz embargada, que também ele é campeão e que já não podem mais dizer que não serve para partidas decisivas. Num canto do campo, Paulo César é sufocado pelos abraços dos companheiros. Até o zagueiro Chiquinho, afastado do time titular por uma contusão, chora, beijando Paulo César, um menino de cara alegre e nariz grande, que vive o seu grande dia. Após uma série de discussões com o clube, finalmente voltou ao time e, com seus gols, garantiu a vitória e a conquista da taça. O diretor Xisto Toniato dá cambalhotas no campo, como um menino de colégio. Tudo é alegria. O técnico Zagalo, com os olhos cheios de lágrimas, diz a todo instante que a vitória foi dos jogadores. No vestiário, as homenagens continuam. Carlito Rocha diz que foi um feito dos tempos do amadorismo: “Os meninos, hoje, fizeram-me recordar a minha juventude”. Um pouco mais distante está o velho Juvenal, campeão de 1948. Com alguns cabelos brancos e óculos, sorri sem parar. Veio ver seu time vencer. Salim, torcedor dedicado e otimista, mostrava seu gravador portátil onde estavam registrados os três gols do Botafogo. O barulho aumenta gradativamente. Os jogadores, aos poucos, vão saindo do estádio, onde uma multidão de torcedores começa a gritar seus nomes. De repente, tranqüilamente, com uma bola debaixo do braço, passa um deles. E uma turma de amigos corre para abraçá-lo. Ele continua andando. A torcida do Botafogo está do outro lado, festejando a vitória. O garoto, enquanto isso, só tem ao seu lado uns dez rapazes. Perto da porta do estádio, ele para e diz para os amigos: “Esta bola é o meu troféu. Vou mostrá-la para todos lá na rua, em Madureira. Parece até mentira, eu com a bola do jogo.” De fato, Carlos Roberto tem o direito de ficar com a bola, pois foi o melhor jogador da partida, nessa tarde de festa para o futebol.

Fonte: Jornal do Brasil.

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